A safra de cana-de-açúcar 2025/26 no Brasil está em reta final e apresenta tendências consolidadas em produção, qualidade e mercado. Dados oficiais atualizados até o final de janeiro de 2026 revelam um ATR em queda e uma virada drástica no mix de produção em favor do etanol nesta reta final.
Por outro lado, observa-se pressão nos preços internacionais do açúcar e um mercado interno de biocombustíveis que, embora tenha ganhado tração em vendas, ainda enfrenta desafios de paridade.
Neste artigo, trazemos uma análise técnica e jornalística desses números, explicando o que eles significam na prática para produtores e usinas. Você verá comparativos com a safra 2024/25, evolução dos preços, desempenho das exportações e influências externas (como a Guerra no Oriente Médio e dólar) sobre as estratégias de comercialização.
Continue lendo para entender como esses indicadores impactam as decisões no campo e nas vendas, e confira dicas de gestão diante do cenário atual.
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Moagem acumulada e qualidade (ATR) até janeiro/2026
Até o final de janeiro de 2026, as usinas do Centro-Sul processaram 601,6 milhões de toneladas de cana. Volume apenas 2,2% inferior ao mesmo período da safra 24/25 (614,9 milhões t). Na segunda quinzena de janeiro, a moagem foi de 608,9 mil toneladas, um movimento que foge ao padrão sazonal de retração, com alta de 154,4% em relação ao mesmo período do ciclo passado e impressionantes 134% acima da média dos últimos cinco anos.
Esse ritmo acelerado reflete a necessidade das usinas por geração de caixa, levando inclusive à colheita antecipada de áreas do programa 26/27, como canaviais de cana planta e áreas com ciclo inferior a 9 meses. Ao todo, 22 unidades operaram nesta quinzena final de janeiro.
Fatores climáticos explicam parte do recuo acumulado: a maior heterogeneidade da matéria-prima e variações de maturação afetaram os resultados.
Em termos de qualidade, o teor de ATR médio acumulado situou-se em 138,3 kg/t, queda de 2,2% frente ao ciclo anterior. Na quinzena, o ATR obtido foi de 121,2 kg/t, sendo 11,1% inferior ao ano passado e 52,4% abaixo da média das últimas cinco safras.
O impacto na prática: As usinas estão extraindo menos açúcar por tonelada. Isso significa menos produto extraído por área, reduzindo a receita potencial. Produtores sentem esse efeito diretamente: com menos açúcar por hectare, é preciso ser ainda mais eficiente no manejo para manter a rentabilidade.
Comparativo de indicadores – Safra 2025/26 vs. 2024/25 (acumulado Centro-Sul):
| Indicador | 2024/25 | 2025/26 | Variação |
| Moagem (milhões t) | 614,9 | 601,6 | -2,2% |
| ATR médio (kg/t) | 141,5 | 138,3 | -2,2% |
| Açúcar produzido (milhões t) | 39,9 | 40,2 | +0,9% |
| Etanol total (bilhões L) | 33,2 | 31,7 | -4,5% |
| Mix açúcar (% do ATR) | 48,10% | 50,7% | +2,6 p.p. |
Panorama da região Norte e Nordeste
O cenário no Norte e Nordeste também traz dados relevantes. A moagem acumulada na região alcançou 48,0 milhões de toneladas, uma retração de 5,5% em relação ao ciclo anterior, reflexo das chuvas irregulares que atingiram AL, PB e PE.
A produção de açúcar na região atingiu 257,7 mil toneladas na quinzena, mas o acumulado de 2,7 milhões de toneladas está 19,9% abaixo do observado na safra 24/25. Esse recuo é acentuado pela perda de acesso ao mercado norte-americano devido a barreiras tarifárias, o que pressionou o mercado regional.
Mix de produção: o recorde alcooleiro na entressafra
O mix produtivo acumulado da safra encerra em 50,7% para o açúcar. Entretanto, na segunda quinzena de janeiro, as 22 usinas em operação destinaram apenas 6,6% do ATR ao açúcar. Este valor renova o recorde de menor mix de açúcar registrado para o período em toda a série histórica desde 2000, com exceção de anos em que não houve moagem.
Essa inversão foi motivada pelos preços do açúcar em NY pressionados e pela melhor remuneração do biocombustível no mercado interno.
Etanol de milho e dinâmica de comercialização
A produção de etanol de milho continua em expansão e amenizou a queda do setor, totalizando 7,647 bilhões de litros no acumulado da safra. Hoje, cerca de 24,1% de todo o etanol do Centro-Sul já vem do milho. Na quinzena, a fabricação de etanol de milho foi de 398,4 milhões de litros, crescendo 3,6% em relação ao período anterior.
No mercado interno, as vendas totais de etanol ganharam tração, somando 1,47 bilhão de litros na quinzena (+11,5% vs. início do mês). O destaque foi o etanol anidro, com vendas de 623,6 milhões de litros e um ritmo firme sustentado pela mistura obrigatória e pelo efeito estrutural do E30. Já o prêmio do anidro sobre o hidratado fechou a quinzena em 13,0%.
Preços internos: açúcar em queda e o desafio da paridade do etanol
No mercado doméstico, os preços refletem a pressão da safra resiliente. Em janeiro/2026, o açúcar cristal (CEPEA/ESALQ) fechou com média de R$ 100,02 por saca, uma queda de 7,6% em relação à quinzena anterior.
- Recomendação: O produtor que vende açúcar internamente enfrenta preços menores, o que exige controle rigoroso de custos e busca por janelas de exportação para escoar o excedente com melhor margem.
Já o etanol hidratado nas usinas foi negociado a R$ 3,02/L, com o anidro a R$ 3,41/L. Apesar de 15 altas consecutivas nos postos (média de R$ 4,65/L), os preços na usina recuaram na semana de 13/02, indicando ajuste de margens na cadeia e menor oferta típica de entressafra.

A paridade média nacional ficou em 73,8%, o nível mais alto desde maio de 2023, o que desfavorece o consumo do hidratado frente à gasolina (R$ 6,31/L). Contudo, os estoques brasileiros estão 23,5% inferiores ao ciclo passado (totalizando 4,66 bilhões de litros), o que oferece suporte aos preços durante a entressafra.
Exportações e cenário global
O Brasil exportou aproximadamente 30,1 milhões de toneladas de açúcar até janeiro. A receita e os volumes sofrem a pressão das cotações em Nova York, onde o contrato março/26 fechou em USD 13,78/lb, acumulando baixa recente de 33 pontos.
No etanol, as exportações acumuladas somam 948,9 milhões de litros. Na segunda quinzena de janeiro, houve um salto significativo nos embarques de anidro (42,7 milhões L), sendo que quase 80% do volume foi destinado ao Uruguai.
Geopolítica em foco: os reflexos do conflito no Oriente Médio para a cana
O agravamento das tensões no Oriente Médio, marcado pela recente escalada militar e a disparada de 13% no preço do petróleo, introduz uma nova variável de volatilidade para o setor. Para a cana-de-açúcar, o impacto ocorre por dois canais:
- Competitividade do etanol: historicamente, a alta do petróleo pressiona os preços da gasolina, o que tende a favorecer o consumo de biocombustíveis. Se o barril se consolidar acima de US$ 90 ou US$ 100, a paridade do hidratado pode tornar-se mais favorável, embora a queda recente do barril Brent para USD 68,33 em janeiro tenha gerado o efeito oposto momentaneamente.
- Custo de produção e o “insumo invisível”: por outro lado, o conflito pressiona o dólar, o que eleva o custo dos fertilizantes nitrogenados e outros insumos essenciais. O Irã é um produtor relevante de ureia (fornecendo 5% da demanda brasileira), e qualquer interrupção nas rotas do Golfo encarece globalmente os custos da safra 2026/27.
Tendências e influências do mercado internacional
As decisões de comercialização nesta reta final da safra 2025/26 e o planejamento para o ciclo 2026/27 estão sendo moldados por um cenário global de alta volatilidade. Entre os principais fatores, destacam-se:
Preços internacionais do açúcar:
- O mercado continua pressionado e as cotações recuaram em relação aos picos anteriores, com o contrato março/26 na Bolsa de NY fechando em USD 13,78/lb.
- Essa queda reflete a constatação de que a safra brasileira 2025/26 mostrou-se mais resiliente do que o projetado, surpreendendo positivamente em volume acumulado.
- Com os preços menores, a eficiência operacional e o timing de hedge tornam-se vitais para garantir a rentabilidade da produção.
Taxa de câmbio (Real vs. Dólar):
- O dólar encerrou o período em R$ 5,21, apresentando uma retração recente de 3,9%.
- Contudo, o novo conflito no Oriente Médio voltou a pressionar a moeda norte-americana, que atua como um “insumo invisível” ao elevar os custos de fertilizantes e defensivos.
- Para o produtor, o dólar alto favorece a receita das exportações, mas exige agilidade comercial para que o ganho não seja anulado pela alta dos custos.
O cenário na Índia
- A produção de açúcar da Índia para 25/26 foi revisada para baixo, estimada agora em 30,95 milhões de toneladas.
- Embora o governo indiano tenha autorizado uma cota total de exportação de 2 milhões de toneladas, analistas consideram pouco provável que esse volume seja alcançado.
- O Brasil reafirma seu papel como principal fornecedor mundial, especialmente em um ambiente onde outras regiões enfrentam quebras produtivas.
Preço do petróleo e mercado de energia:
- A guerra no Oriente Médio provocou um salto imediato de 13% no preço do petróleo.
- O barril Brent, que operava na casa dos USD 68,33 em janeiro, sofreu forte pressão de alta.
- Petróleo mais caro encarece a gasolina e torna o etanol mais competitivo. Por isso, as usinas reagem acelerando a produção de biocombustível, com o mix de açúcar caindo para apenas 6,6% na última quinzena de janeiro.
Políticas e sustentabilidade:
- A segurança jurídica do setor foi reforçada com a decisão do STJ em manter a validade das regras do RenovaBio, garantindo a previsibilidade do mercado de CBios.
- Além disso, o Brasil e o México estabeleceram uma agenda de cooperação estratégica em biocombustíveis, visando a descarbonização e a ampliação da presença internacional.
Em conclusão, a safra 2025/26 traz desafios de produtividade e preços, mas também oportunidades de mercado para quem souber se adaptar
A safra 2025/26 encerra-se com desafios de produtividade, mas consolidando a resiliência do setor sucroenergético brasileiro frente às incertezas climáticas e geopolíticas. O cenário exige do produtor e das usinas uma gestão de risco rigorosa: é fundamental monitorar não apenas o clima e o mercadointerdo, mas também as variáveis externas que ditam os custos de produção e a paridade energética.
Com a escalada do conflito no Oriente Médio, o planejamento estratégico para a safra 2026/27 — especialmente no que diz respeito à proteção cambial (hedge) e à antecipação da compra de fertilizantes — deixa de ser opcional e torna-se uma necessidade para preservar a rentabilidade.
A boa notícia é que o Brasil segue competitivo e essencial no mercado mundial de açúcar e etanol e, mesmo num ano difícil, deve encerrar a safra com números satisfatórios.
Com informação de qualidade e ações proativas, os produtores e consultores do setor poderão atravessar este ciclo com resiliência e se preparar para aproveitar ao máximo as oportunidades da próxima safra.
Fontes consultadas:
- UNICA (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia)
- CEPEA/ESALQ (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada)
- SAPCana (Sistema de Acompanhamento da Produção de Cana-de-Açúcar — MAPA)
- ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis)
- ICE (Intercontinental Exchange — Bolsa de NY)
- ISMA (Indian Sugar & Bio-energy Manufacturers Association)
- CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil)
- SECEX (Secretaria de Comércio Exterior)
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